Amaras o teu proximo como a ti mesmo

   “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”  (Lv 19,17-18)

    Caríssimo Leitor, nesta primeira edição de 2011 façamos uma reflexão profunda à luz da palavra de Deus sobre o Amor ao próximo.
    Para Israel, somente é possível amor a Deus se há amor ao próximo. Mas, ao longo da história, houve uma tendência de interpretar esse mandamento em sentido restrito, reservando a prática do amor apenas para o compatriota.
    O evangelho afirma que Jesus interpretou o preceito do amor ao próximo em dimensões universais. Por motivo algum é lícito odiar o outro filho do mesmo Pai celeste e alvo do mesmo amor fraterno (Mt 5,45).
    O mundo julga ser loucura retribuir o ódio com o amor, o mal com o bem, as ofensas com o perdão. Mas em I Cor 3,19, Paulo ensina que os cristãos não devem se preocupar quando o mundo os julga louco, afinal “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”. “Olho por olho, dente por dente” (Mt 5,38; Ex 21,24) é uma antiga lei, anterior à existência do povo de Israel. Era uma lei de natureza social e não individual. Tinha por objetivo limitar os excessos de vingança de uma tribo contra a outra. Israel também aderiu a esse preceito, mas o abrandou bastante com a exigência do perdão (Lv 19,17-18).
    Evangelho (Mt 5,38-48); Amai os vossos inimigos. O papel dos cristãos é o controle do mal no mundo mediante a não violência, como fez Jesus na cruz. “Ouvistes o que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás teu inimigo” (Mt 5,43). Passagem  alguma da Escritura ordena odiar os inimigos. Essa orientação teve origem em grupo judeu contemporâneo de Jesus.
    Em um livro, intitulado Regra de Comunidade, encontrado no século passado nas grutas próximas ao Mar Morto, os judeus pertencentes ao grupo dos essênios dão essa orientação de ódio aos inimigos: “Ame o que Deus escolheu e odeie o que Deus rejeitou”.
    A santidade é o principal atributo do Deus de Israel. Em primeiro lugar porque ele é separado, ou seja,  não se confunde com a criatura.  Nas civilizações vizinhas de Israel, as religiões politeístas confundiam a divindade com vários seres da natureza ou com imagens.
    Israel não se vingará nem terá rancor, mas amará o próximo. Agindo assim, participava da Santidade de Deus e se tornava diferente dos povos vizinhos, que praticavam ações contrárias a esse preceito. Isso significa a existência de uma ética inerente ao monoteísmo que não era encontrada em religiões politeístas, em cujos mitos as divindades praticavam e ensinavam o ódio e o egoísmo.
    Cristo é o lugar do encontro definitivo entre a humanidade e o criador. Pertencer a Cristo significa ser mediação do amor e do perdão, ser lugar do encontro com Deus. E isso é loucura para o mundo, mas sabedoria de Deus.
    Portanto, calúnia significa “diminuir alguém pela palavra falada”. Se aceitamos a vida de santidade, não podemos ficar indiferentes quando a falsidade se exibe disfarçada de verdade, acarretando a destruição da vida. Lv 19,1-37 – Diversas regras de conduta. As duas regras básicas do relacionamento divino-humano encontram-se aqui o amor de Deus e o amor do próximo. Se alguém está vivendo a vida de santidade, então todos são “o próximo”. Entretanto, há uma sequência santa. O amor de Deus vem primeiro e inclui o amor do próximo, mas o amor do próximo não leva, necessariamente, ao amor santo.
    A lei de Talião- Ex 21,23-25 fundamental em todos os códigos do Antigo Oriente, onde a justiça repousa sobre a vingança privada, a lei de talião, desenvolvida em Lv 24,17-20, protege contra os apetites imoderados de vingança (Gn4,23s). Cristo a substituirá por um mandamento novo: Mt 5,38-42.
    Mt 5,38-48- A lei do Talião (Ex 21,234; Lv 24,19-20; Dt 19,21) tinha o propósito de restringir a vingança e manter limitada a violência. Jesus exorta seus seguidores a abster-se até mesmo da retaliação limitada permitida pelo Antigo Testamento e, assim, interromper todo o ciclo de vingança. Os discípulos não devem adotar as atitudes e ações dos inimigos.
    A última antítese exige que os seguidores de Jesus amem não só os membros de seu grupo nacional e religioso (Lv 19,18), mas até mesmo os inimigos. Essa nova exigência baseia-se, não na natureza humana, mas no exemplo de Deus. É da natureza humana (representada pelos coletores de impostos e pagãos) amar os que nos amam e saudar apenas os membros de nossa família. Quando o amor e o cuidado de Deus por todos são tomados como modelo, os discípulos de Jesus não podem limitar seu amor a seu grupo ou sua nação. A perfeição dos discípulos reflete e é medida pela perfeição divina.
    O amor incondicional a todos é a expressão mais perfeita da santidade de Deus. Na sua origem a lei do Talião teve um profundo sentido humanitário, pois nasceu para limitar a vingança indiscriminada, que era comum entre os povos orientais. Esta lei era interpretada literalmente na época de Jesus pela maioria dos judeus; no entanto, Jesus propõe ir ao âmago desse mandamento divino e descobrir nele a vontade divina de romper com a espiral da violência, que é gerada ao se responder com a mesma moeda.
    (Se alguém vem obrigar-te a andar...)
Refere-se a um fato concreto relativamente frequente na Palestina naquela época: o pedido que o exército romano, desorientado fazia aos viajantes para que o acompanhassem e lhe indicassem o caminho. A atitude de não opôr-se aos que fazem o mal, chega até o limite de não negar ajuda nem sequer aos opressores romanos. E a razão profunda dessa atitude é que com a chegada do Reino se torna presente o amor de Deus, um amor que rompe as leis de correspondência.
    Amar os inimigos – É um amor sem fronteiras e somente pode ser entendido como expressão do amor de Deus, que é para todos. Os discípulos devem amar desta forma , porque é assim que Deus nos ama. Este será o seu sinal característico.
    Sede perfeitos- Os discípulos devem viver com o olhar voltado para Deus, pois foram chamados a manifestar em sua vida a perfeição de Deus, cuja a expressão mais perfeita é o amor incondicional.

 

Pe. Reginaldo Cordeiro de Lima

Fundador